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Algum pessimista argumentará que, qualquer que seja o tratam 4586

Algum pessimista argumentará que, qualquer que seja o tratamento que eu dê ao tema anunciado pelo título acima, não passarei de comentários tautológicos, já que a morte por si mesma é banal, não necessitando de que se sublinhem essa condição. De fato, como única verdadeira certeza que temos na vida, a morte é banal, acontece a toda hora e, mais cedo ou mais tarde, chegará para todos. Mas, embora saiba não estar dizendo novidades, pois eu mesmo já falei neste assunto várias vezes e em várias ocasiões, acho que, entre nós, a morte está ficando banal em demasia.

            Nas grandes cidades brasileiras a começar pelas duas maiores, mata-se praticamente como se tratasse de algo inerente à existência urbana. Não creio estar apenas reprisando um bordão de velho, quando digo que a vida humana cada vez tem menos valor - e não só para bandidos, que assassinam mesmo sem necessidade alguma, mas para nós, outros, que só faltamos dar de ombros, quando sabemos de uma nova morte violenta, entre as dezenas que se noticiam todos os dias nos jornais. Em biologia, sabe-se que a repetição exaustiva de um estímulo acaba por atenuar fortemente, ou mesmo eliminar, seu efeito. Sem dúvida, isto acontece conosco. De tanto sabermos de barbaridades, já não mais nos chocamos.

            A morte violenta não nos sitia somente nos noticiários. Ela está em todas as partes, nas balas perdidas que vêm atingindo tanta gente no Rio de Janeiro e que são mesmo objeto de fornidas coleções em alguns bairros, nos jogos eletrônicos que fascinam nossos filhos e netos e nos enlatados americanos com que somos bombardeados pela televisão. Desde criança, vemos mortes violentas às dúzias. E, o que é pior, mortes desacompanhadas de tudo que ela traz na vida real. O personagem toma um tiro, bate as botas e nada mais acontece. Não há luto, não há orfandade, não há viuvez, não há nem sequer dor. O assassinato e a morte são quase iguais a outros atos corriqueiros da vida cotidiana.

            Sabemos também que, embora não esteja na lei, a pena de morte, pública e privadamente decretada, há muito tempo existe no Brasil. De vez em quando aparece uma reportagem, mostrando como pistoleiros cobram quantias que não dão nem para um bom jantar, num bom restaurante, para matar alguém que não conhecem e que nunca hes fez mal. Encher a cara, pegar o carro e matar um desafeto é a melhor maneira de cometer homicídio no Brasil. O matador paga fiança, é solto, responde o processo em liberdade e, se eventualmente for condenado, poderá, caso se trate de réu primário, cumprir a pena também em liberdade.

            A polícia mata ("executa", palavra com que certa imprensa parece querer nobilitar o assassinato) e não mata somente o bandido, mas também o cidadão que está por perto. Comerciantes contratam "justiceiros", que tomam a si o encargo de eliminar quem quer que pareça uma ameaça. Viajar de ônibus passou a ser uma aventura cotidiana, pois raro é o dia que um ou mais não são assaltados, com direito a tiroteio. Hospitais, berçários, asilos de velhos e clínicas matam em níveis reminiscentes do nazismo. Morre-se de fome nas cidades e no campo, e por aí vamos.

            Enfim, mata-se escandalosamente em toda parte e ficamos nós, os sobreviventes, como que anestesiados. Para muitos, infelizmente, o problema só se torna grave quando a vítima lhes é próxima. Enquanto acontece somente com os outros, não merece muita atenção. Isso não pode deixar de ser visto como uma gravíssima deformação, de que precisamos tomar consciência e nos livrarmos a qualquer custo. A morte é o fim natural da vida, mas não é natural que se alastre dessa forma monstruosa e que, embotados, abúlicos e acomodados, não façamos nada para mudar a situação em que tão aviltantemente existimos. Não somos bichos, somos cidadãos, e se não zelarmos até ferozmente pelos nossos direitos, dentro em breve não teremos mais direito nenhum, nem mesmo à vida.

João Ubaldo Ribeiro. Manchete, 16/11/96, p. 97.2

 

Um dos casos mais freqüentes do emprego da vírgula (ou de entrevírgulas, segundo alguns gramáticos) é para marcar a intercalação de um termo ou de uma oração em uma sentença, rompendo, assim, a cadeia da frase inicial.

Assinale a opção em cujo fragmento o emprego das vírgulas não obedece a essa regra.

Questão no QuestionsOf: Algum pessimista argumentará que, qualquer que seja o tratam 4586

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