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Algum pessimista argumentará que, qualquer que seja o tratam 4597

Algum pessimista argumentará que, qualquer que seja o

tratamento que eu dê ao tema anunciado pelo título acima, não passarei

de comentários tautológicos, já que a morte por si mesma é banal, não

necessitando de que se sublinhem essa condição. De fato, como única

verdadeira certeza que temos na vida, a morte é banal, acontece a toda

hora e, mais cedo ou mais tarde, chegará para todos. Mas, embora saiba

não estar dizendo novidades, pois eu mesmo já falei neste assunto várias

vezes e em várias ocasiões, acho que, entre nós, a morte está ficando

banal em demasia.

            Nas grandes cidades brasileiras a começar pelas duas

maiores, mata-se praticamente como se tratasse de algo inerente à

existência urbana. Não creio estar apenas reprisando um bordão de velho,

quando digo que a vida humana cada vez tem menos valor - e não só para

bandidos, que assassinam mesmo sem necessidade alguma, mas para nós,

outros, que só faltamos dar de ombros, quando sabemos de uma nova morte

violenta, entre as dezenas que se noticiam todos os dias nos jornais. Em

biologia, sabe-se que a repetição exaustiva de um estímulo acaba por

atenuar fortemente, ou mesmo eliminar, seu efeito. Sem dúvida, isto

acontece conosco. De tanto sabermos de barbaridades, já não mais nos

chocamos.

            A morte violenta não nos sitia somente nos noticiários. Ela

está em todas as partes, nas balas perdidas que vêm atingindo tanta

gente no Rio de Janeiro e que são mesmo objeto de fornidas coleções em

alguns bairros, nos jogos eletrônicos que fascinam nossos filhos e netos

e nos enlatados americanos com que somos bombardeados pela televisão.

Desde criança, vemos mortes violentas às dúzias. E, o que é pior, mortes

desacompanhadas de tudo que ela traz na vida real. O personagem toma um

tiro, bate as botas e nada mais acontece. Não há luto, não há

orfandade, não há viuvez, não há nem sequer dor. O assassinato e a morte

são quase iguais a outros atos corriqueiros da vida cotidiana.

            Sabemos também que, embora não esteja na lei, a pena de

morte, pública e privadamente decretada, há muito tempo existe no

Brasil. De vez em quando aparece uma reportagem, mostrando como

pistoleiros cobram quantias que não dão nem para um bom jantar, num bom

restaurante, para matar alguém que não conhecem e que nunca hes fez mal.

Encher a cara, pegar o carro e matar um desafeto é a melhor maneira de

cometer homicídio no Brasil. O matador paga fiança, é solto, responde o

processo em liberdade e, se eventualmente for condenado, poderá, caso se

trate de réu primário, cumprir a pena também em liberdade.

            A polícia mata ("executa", palavra com que certa imprensa

parece querer nobilitar o assassinato) e não mata somente o bandido, mas

também o cidadão que está por perto. Comerciantes contratam

"justiceiros", que tomam a si o encargo de eliminar quem quer que pareça

uma ameaça. Viajar de ônibus passou a ser uma aventura cotidiana, pois

raro é o dia que um ou mais não são assaltados, com direito a tiroteio.

Hospitais, berçários, asilos de velhos e clínicas matam em níveis

reminiscentes do nazismo. Morre-se de fome nas cidades e no campo, e por

aí vamos.

            Enfim, mata-se escandalosamente em toda parte e ficamos nós,

os sobreviventes, como que anestesiados. Para muitos, infelizmente, o

problema só se torna grave quando a vítima lhes é próxima. Enquanto

acontece somente com os outros, não merece muita atenção. Isso não pode

deixar de ser visto como uma gravíssima deformação, de que precisamos

tomar consciência e nos livrarmos a qualquer custo. A morte é o fim

natural da vida, mas não é natural que se alastre dessa forma monstruosa

e que, embotados, abúlicos e acomodados, não façamos nada para mudar a

situação em que tão aviltantemente existimos. Não somos bichos, somos

cidadãos, e se não zelarmos até ferozmente pelos nossos direitos, dentro

em breve não teremos mais direito nenhum, nem mesmo à vida.

João Ubaldo Ribeiro. Manchete, 16/11/96, p. 97.2

O autor trabalha seu texto utilizando vários recursos estilísticos. Com relação à conotação e à denotação, julgue os itens abaixo.I. "Não há luto, não há orfandade, não há viuvez, não há nem sequer dor"II. "Morre-se de fome nas cidades e no campo"III. "Enfim, mata-se escandalosamente em toda parte"IV. "os enlatados americanos com que somos bombardeados"Os vocábulos estão empregados predominantemente em sentido conotativo apenas nos itens

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